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17 de maio de 2013

Terremoto! y otras cositas más

Em janeiro de 2010 o já miserável Haiti é atingido por um terremoto de 7 pontos na escala Richter. O pior dos últimos 200 anos. Alguns segundos foram suficientes pra derrubar 60% das construções do país: hospitais, escolas, presídios e até mesmo o Palácio Presidencial. Nesse evento morrem cerca de 200 mil pessoas (dados contestados), fere mais de 300 mil e deixa 1,5 milhões sem teto. Isso todo mundo já sabe. O que nem todo mundo sabe é que as consequências imediatas desse evento são só o começo de uma longa, complexa e trágica novela que não tem prazo pra terminar. 

Porto Príncipe após o terremoto
Já se passaram mais de 3 anos desde a tragédia. Apesar do fluxo intenso de ajuda internacional que se sucedeu logo após o terremoto pouco se viu de concreto na melhoria de vida dos haitianos em comparação com 2010. 

Palácio Presidencial após o terremoto. As instituições haitianas já estavam em ruínas anteriormente. 
A entrada em massa e repentina de ONGs e agências da ONU transformaram o Haiti no que chamam de "República das ONGs". Esse tipo de intervenção, apesar de bem intencionadas a princípio, causam males próprios. É um fenômeno apelidado de "efeito dos carros brancos", que faz alusão aos carros tipicamente brancos das agências de ajuda internacionais que invadem regiões do mundo que clamam por assistência: ocorre portanto um desequilíbrio econômico importante em diversas esferas. 

Após o terremoto houve um "tsunami" de agências da ONU
No curto prazo, os efeitos nocivos vão de demissão em massa de funcionários locais como policiais, médicos, administradores públicos, enfraquecendo o já fragilizado governo: há uma rápida e ampla demanda por empregos como motoristas, vigias, cozinheiros e etc. Agências da ONU e ONGs costumam ter um salário relativamente mais alto comparados àqueles do contexto onde intervêm. Em algumas situações o salário de um motorista de uma ONG/ONU pode ser mais alto que de um médico local que trabalha para o Ministério da Saúde. 

No médio prazo há um aumento dos preços de comida, gasolina e serviços em geral, reduzindo o poder de compra da população o que gera um ciclo vicioso de necessidade de ajuda eterna. 

A longo prazo é observado a falência da agricultura nacional que não pode concorrer com os alimentos subsidiados pelos atores internacionais além de instaurar uma cultura de assistencialismo perpétuo que desencoraja e atrofia o desenvolvimento local. 

Arroz subsidiado americano pro Haiti.
De boas intenções o inferno está cheio.
Esses malefícios causados pela "invasão das ONGs" pode ser observada na prática hoje em alguns exemplos no Haiti: 40% o arroz consumido era cultivado no próprio país. Atualmente essa número é somente 2%, devido às doações de milhares de toneladas desse produto pelo US Aid. Nos mercados de Porto Príncipe, o arroz americano é mais barato que o haitiano. O US Aid é um dos mais questionados sistemas de ajuda, pois com o intuito de ajudar os haitianos, acaba por ajudar ainda mais os produtores americanos, que ganharam um novo mercado de 10 milhões de estômagos.

Protesto contra a presença das tropas da ONU no Haiti
por terem trazidos de volta a cólera ao país
Além desses efeitos já conhecidos pelos economistas e estudiosos do assunto, existe também outros efeitos colaterais que podem ocorrer por "azar". No caso do Haiti, o caso mais exemplar foi a reintrodução da cólera, que já tinha sido erradicada havia mais de 100 anos no país. Tropas nepalesas da ONU que não eram exatamente campeões nas olimpíadas de higiene, contaminaram um dos principais rios de Porto Príncipe com a bactéria da cólera importada do Nepal. A doença se espalhou rapidamente pelo Haiti, gerando uma epidemia de proporções homéricas, afetando mais de 500 mil pessoas. Desde então, os ciclos epidêmicos dessa doença são recorrentes no país.

Como se não bastassem todas essas tragédias, o Haiti ainda tem a problemática geográfica. Ter sua capital instalada exatamente sobre uma falha geológica não é o único problema. O país fica também na rota dos ciclones e tempestades tropicais do Caribe e é atingido todos os anos por esses fenômenos da natureza. 

O furacão Sandy passou pelo Haiti antes de virar cenário fotográfico de Nana Gouvea
Nana Gouvea & Sandy numa bela parceria. 
Para-casa pra mídia: rever foco de atenção.
Em 2012, enquanto todos ficavam espantados com a falta de luz em New York devido a passagem do furacão Sandy (mais de 15 milhões de iPhones sem bateria, uma verdadeira tragédia), esqueceram que antes de chegar à Big Apple, o mesmo passou pelo Haiti. Deixou dezenas de mortos, causou deslizamentos de terra, arruinou plantações e adicionou mais 18 mil haitianos na lista dos sem abrigo. Enchentes causadas por essas recorrentes tempestades e furacões propicia a propagação da cólera. Cada ano o Haiti conhece ao menos 2 epidemias da doença.

O Haiti faz parte de um contexto político, geográfico e histórico extremamente complicado. Não há respostas simples para o que deve ser feito para ajudar o país. A maioria das intervenções nascem de boas intenções, mas podem se tornar verdadeiros tiros pela culatra. Não intervir também não é solução, os haitianos precisam desesperadamente sair da miséria e estar melhor preparados para futuros desastres naturais. Se alguém tiver a resposta certa, favor levantar a mão.

4 comentários:

  1. Realmente uma questão muito complicada, pois um problema histórico, que veio se agravando em proporções catastróficas ao longo do tempo, pode levar esta mesma quantidade de tempo para ser resolvido. Porém eu me pergunto se existe mesmo uma solução exata, pq quanto mais se conhece esta história, mais se percebe que a vontade de alguns vilões de dominar uma nação, e o mundo não é coisa só de filme, e enquanto houver pessoas que coloquem interesses assim acima das necessidades do povo, do país, nada pode ser feito. Não há ajuda de fora que vá resolver, se quem está vivendo isso não se ajudar. Não há crescimento na zona do conforto. Desta vez, infelizmente, não posso levantar a minha mão.

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    1. Errante Sem Fronteiras17 de maio de 2013 às 15:51

      É Renata, não há resposta certa, nem única. O importante é perceber isso, e trabalhar todos numa solução complexa que envolve todos os atores e a longo prazo.

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  2. Bonito dizer que não há solução. Em Roma escutei o Papa dizer: Che é la veritat. Fica legal no discurso, agrada a todos e passa a segurança de que afinal fez-se o que se achava correto. Ninguém está errado, todos estao certos. Che e la veritat.

    As pessoas so esquecem de perguntar: Mas e ai?

    Cuidado com a negacao preemptoria de solução. Há sim solucao. Se não houvesse, que fazer por lá?

    Alguém está sim errado. Alguém está nadando contra. Em suas próprias palavras: de bem intencionado o inferno tá cheio. Eles então que queimem para deixar Em paz quem sabe o que está fazendo.

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    1. Errante Sem Fronteiras21 de maio de 2013 às 00:14

      Há sim solução. Muitas ações são positivas e dão resultados, outras entretanto são catastróficas. Importante é aprender com os erros e acertos e atacar melhor os problemas agora e no futuro. Infelizmente o que se vê é uma amnésia histórica, e os mesmos erros se perpetuam muitas vezes.

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